Paulo Freire

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Cine Califórnia debate a adolescência na Escola Conde Correa de Araújo com a presença de alunos especiais

Quando chegamos a Escola Conde Correa de Araújo, em São Lourenço da Mata, por volta das 11h00 da manhã, da última sexta (23/09), logo percebi que a sessão do Cine Califórnia Itinerante seria das mais consistentes. Primeiro porque tínhamos acertado que a exibição aconteceria para 06 turmas do 1º ano do Ensino Médio Integral e segundo porque a gestora Angelina havia nos convidado para almoçar, já que a sessão estava programada para começar ás 13h30, em outras palavras, teríamos mais tempo para interagir com os funcionários e alunos da escola.

Equipamento checado e ajustado, a campainha tocou e vamos todos para o salão do almoço. No cardápio: feijão com arroz, frango, purê, salada e suco de maracujá. Comida caseira, simples e gostosa. Uma banana e depois um cafezinho da hora deixou nossa equipe esperta pra começar a trabalhar. Desta vez nosso público estava formado por 130 adolescentes do 1º ano do Ensino Médio Integral, já incluídos os 16 estudantes especiais, portadores de deficiência intelectual, acompanhados pela professora Gracinha. E ainda a Professora Sheyla e a gestora Angelina.

Durante a apresentação do projeto para os alunos, a cine-educadora Ruth Pinho sentiu a turma inquieta e aos poucos foi dialogando sobre a importância do cinema na escola, como mais um instrumento de aprendizado. As conversas paralelas foram cedendo aos poucos e a galera aprendendo a ouvir qual era o objetivo de levarmos o cinema para a escola pública, seguida de debate com os alunos.  “Nossa programação deste ano nas escolas está focada na adolescência. Vamos ver dois filmes: um curta pernambucano de Marcelo Lordello, chamado nº 27 e um longa-metragem gaúcho de Jorge Furtado, Houve uma vez Dois Verões. Os dois vão contar histórias que se passam nesta fase que vocês estão vivendo. Parem, olhem e pensem que elas podem acontecer com qualquer um!”, finalizou Ruthinha.

O clipe de abertura dos filmes, feito por Tuka, da Center Vídeo envolveu a todos que antes mesmo do curta começar já se ouviam gritos e assovios ao som do batuque de maracatu de baque virado. Quando surgem as primeiras imagens de Nº 27, a platéia  fica alguns minutos totalmente em silêncio. O filme cujo argumento girou em torno de uma situação de bulling vivido por um amigo do realizador, deixa o público de adolescentes com dificuldade de permanecer quieto sentado na cadeira, afinal quem nunca passou por um constrangimento ao ter que enfrentar uma dor de barriga repentina, num banheiro de escola sem papel higiênico?


“É o cagão” grita um adolescente, na cena em que o personagem do filme pede ajuda do coordenador do colégio para trocar de blusa. Gritos e brincadeiras. Os alunos especiais estavam totalmente concentrados no filme, riam, brincavam! –Tem sabão de coco! Porque ele não lava a camisa? Se divertia um deles com a situação. Quando o curta acabou, são os primeiros a puxar os aplausos que aos poucos ganha a adesão de todos os estudantes.

Rock´roll e um jogo de fliperama ilustram a cena de abertura em animação do filme de Jorge Furtado, cuja história se passa numa praia de veraneio gaúcha, no último mês de férias de uma garotada, que regida por hormônios, desejo de liberdade e descobertas sexuais, apronta com os moradores, inventa novidades para pegar as meninas a todo o custo, até que um deles é surpreendido pela descoberta do amor e vai atrás da garota até encontrá-la no próximo verão. Temas como a primeira transa, sexo com camisinha, o uso da pílula anticoncepcional, o que é o amor e as inquietações características da adolescência circulam pelo roteiro do filme.

Assim como ler o mesmo livro várias vezes em situações diferentes, sempre nos acrescenta algo novo, acompanhar a exibição dos mesmos filmes em várias escolas, diante de alguns comportamentos já padrões, como cenas de sexo=gritos+piadinhas+suspiros, o inusitado geralmente acontece.

“Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”.  O filme terminou com a música do compositor paulista, Walter Franco, interpretada pela Banda Pato Fu. Palmas e mais palmas! Ruthinha que estava na saída da sala e barrou alguns alunos apressados que queriam sair um pouco antes de terminar a exibição, subiu ao palco do auditório e perguntou: E aí gente? Gostaram? Os apressados já estavam sentadinhos de novo e sorriam como anestesiados pelo final feliz do filme. Uma ficção, que se utiliza de um fato real, acontecido em 1998, quando o Laboratório Schering do Brasil Química e Farmacêutica Ltda foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) a pagar indenização coletiva no valor de R$ 1 milhão por ter colocado no mercado lotes do anticoncepcional Microvilar sem princípio ativo, ou seja, com farinha no lugar da mistura química, provocando gravidez indesejada nas consumidoras.

A aluna especial Clécia Jeane, 21 anos, pegou o microfone e disse: eu gostei do filme! Ela ficou grávida na hora que queria, perguntou Ruthinha? Não, ela tomava pílula, respondeu Clécia, que insistia em não largar o microfone! E a turma começou a se animar com o depoimento da colega. Quando lá do fundo da sala, se levanta uma aluna e diz: “eu quero que vocês botem a consciência na cabeça para não fazer besteira. E se dirige para o palco: eu era a pior aluna da escola, não era não, fala para a turma? Muita agitação! E continua: a gente tem que crescer e respeitar o outro. Quando a gente é moça tem que se cuidar na hora de transar! Afirmou decidida, Jaine da Silva, 18 anos. A turma vai saindo do auditório comentando a atitude positiva da garota.

No final foram distribuídos uma camisa do Cine Califórnia Itinerante, DVDs do filme Incenso - do cineasta pernambucano (in memorian) Marcos Hanois - baseado na poesia do também pernambucano, Ascenso Ferreira e livros de literatura de cordel do projeto Incenso na Escola, com os alunos que participaram do debate. Todo mundo ganhou pipoca de graça!






Cine Califórnia Itinerante é um projeto do Cine Califórnia, patrocínio do Funcultura/ Audiovisual, Fundarpe, Secretaria de Educação e Governo de Pernambuco, através do 3º Edital do Programa de Fomento à Produção Audiovisual de Pernambuco/ FUNCULTURA 2009-2010, com apoio do MinC/ Regional NE e Federação Pernambucana de Cineclubes/ FEPEC e ao Conselho Nacional de Cineclubes/ CNC.







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